A doutrina do “toma lá dá cá”

“Não ajunteis tesouro na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.” (Mateus 6:19-20)

 

Nos últimos tempos, temos assistido ao crescimento assustador das denominações religiosas, cujos líderes adotaram a famosa “teologia” da prosperidade como doutrina e conduta de fé. Diferentemente daquilo que JESUS e toda a Bíblia ensinam sobre prosperidade e vida cristã repleta de dificuldades e aflições, os aproveitadores de plantão, negociadores da fé alheia, enganam incautos, pessoas ávidas por receberem algum tipo de recompensa material de DEUS, com ensinamentos completamente distorcidos e comportamentos nefastos.

O certo é que esse mal se alastrou rapidamente como uma epidemia descontrolada, chegando a confundir os verdadeiros ensinamentos de DEUS, superlotar templos e a tornar cada vez mais ricos falsos líderes que só intentam amealhar riquezas para si próprios.

Segundo alguns estudiosos, a doutrina que ensina o homem a fazer barganhas com DEUS surgiu nos Estados Unidos, próximo à metade do século XX, e logo se difundiu pelo mundo. Quase todo o material que se tem publicado sobre o assunto atribui a Essek William Kenyon, ex-pastor das igrejas batista, metodista e pentecostal, a responsabilidade de ter desenvolvido tais ideias satânicas. De acordo com ele, o poder da mente, a inexistência das doenças e o poder do pensamento positivo seriam a chave para uma vida de conforto, longe de aflições e problemas, e cada vez mais próspera materialmente. Discípulo de Kenyon, Kenneth Hagin foi outro que abraçou com fervor a causa da prosperidade material, da busca pelas riquezas, afirmando que “Deus está, na verdade, interessado no sucesso financeiro de cada um, mas que, para isso, o interessado deveria antes doar o seu dinheiro, todos os seus bens, com o propósito de estar investindo na obra do SENHOR”. Aos 16 anos, Hagin diz ter recebido uma revelação quando lia Marcos 11:23-24, entendendo que tudo se pode obter de DEUS, desde que a pessoa declare o que deseja em voz alta, sem duvidar, e ainda que as evidências demonstrem o contrário. Ainda conforme esse líder religioso, DEUS dá autoridade aos seus profetas nos dias atuais, como seus porta-vozes: “Reconheço que se trata de uma unção diferente… é a mesma unção, multiplicada cerca de cem vezes” (Compreendendo a Unção, pág. 07).

Aliás, os adeptos à doutrina do “toma lá dá cá” usam quase os mesmos jargões, clichês exaustivamente ensaiados, que visam a alienar os seguidores, quase sempre de baixa renda, com pouca ou nenhuma escolaridade, que não examinam as Sagradas Escrituras, e, quase sempre, são pessoas que estão atravessando grandes problemas de ordem afetiva, financeira, profissional ou de saúde. “Você estará colhendo a mesma espécie que plantar. Quem doa tudo o que tem para a ‘Casa do Tesouro’, recebe em troca casas, carros, empregos, pomposos aumentos salariais, curas, libertação do cônjuge, restauração do casamento e muitas outras benfeitorias”; “DEUS está interessado no bom andamento das suas finanças”; “Pare de se lamentar, de chorar, DEUS não quer que você sofra nem viva uma vida de miserabilidade”; “A partir de hoje declare para você mesmo com muita fé: eu vou semear para colher cem vezes mais”; “DEUS vai restituir tudo o que satanás roubou de você”, e outros motes bastante conhecidos. O verbo mais citado nas reuniões de prosperidade não poderia ser outro, senão o verbo restituir. Repetem-no tanto, nos mais variados tempos e modos, que chegam a criar uma verdadeira “lavagem cerebral” no indivíduo que o recebe, como uma hipnose ou um estado de alienação constante que deixará a pessoa totalmente dependente dessas artimanhas. Por conta de uma capacidade extraordinária de persuasão junto aos ingênuos na fé e também da facilidade fiscal brasileira em abrir templos religiosos, que essas lideranças contraíram para si grandes riquezas, mansões, jatinhos particulares, empresas superpoderosas, filhos estudando no exterior nas melhores universidades; e converteram a verdadeira adoração a DEUS em show da fé. Prega-se todo e qualquer tipo de facilidade, menos a necessidade de renúncia do ser humano e a busca pela santificação. Segundo Norman Campbell, “o deus mamom atrai mais fiéis do que o CRISTO da Galiléia”.        

O fato triste, em tudo isso, é que alguns dos que antes eram considerados grandes homens tementes a DEUS, aos poucos, estão se juntando aos disseminadores dessa heresia. Definitivamente a avareza corrompeu o seu caráter cristão.

Mas, finalmente, o que a Bíblia diz sobre prosperidade? No Antigo Testamento, encontramos, pelo menos, dez diferentes palavras da língua hebraica que pertencem ao mesmo campo semântico da palavra prosperidade. Prosperar, segundo a Palavra de DEUS, não é obter vantagens pessoais ou ganhar dinheiro, mas obter um crescimento na relação do homem com DEUS. Vejamos alguns exemplos: O profeta Ezequiel relaciona prosperidade para a casa de Israel com uma videira que dá frutos (Ezequiel 17:1-10; Salmos 1:3). Com Josué, que assumiu a liderança do Povo no lugar de Moisés, DEUS relacionou a prosperidade em ser forte e corajoso, não temer e andar nos caminhos de santidade (Josué 1:1-9 e 3:5). Na oração de Neemias, encontramos outra definição para a prosperidade: praticar a misericórdia, isto é, ser bondoso e leal com DEUS e seus semelhantes (Neemias 1:11). Muitos outros textos definem o êxito e sucesso na vida com a conduta sábia, o discernimento e a perspicácia no trato com a instrução de DEUS (Deuteronômio 29:9; 1 Reis 2:3; Eclesiastes 10:10; 11:6). O povo de DEUS entendia que fazer o bem e agir corretamente na vida era ser próspero (Jó 21:13; Salmos 106:5).

Toda a Bíblia proclama que a obediência a DEUS é a causa direta da prosperidade dos justos (Gênesis 39:3-23; Isaías 48:15; Ezequiel 17:9-10 e Neemias 2:20). Entretanto, DEUS usa uma pedagogia justa e perfeita para que o justo alcance esse estágio de prosperidade. Assim, a Bíblia mostra que a prosperidade só pode ser adquirida através: 1) do sofrimento e pela Graça de DEUS (Isaías 53:10); 2) da fidelidade e lealdade a DEUS e ao Seu povo (Jeremias 13:7-10; Deuteronômio 6:9); 3) da busca do temor do Senhor (1 Crônicas 26:5); 4) da prática de justiça (Salmos 1:3); 5) da descida do Espírito Santo (Juízes 14:6; 19; 15:14). Mas a Palavra de DEUS também mostra que pessoas ímpias, injustas, que praticam o mal, podem igualmente prosperar, mas que essa prosperidade não cause inveja nem incômodo aos justos. O Salmo 37 é um belo exemplo da crise de fé causada pela prosperidade de pessoas más, opressoras, egoístas e descrentes. O salmista começa com uma recomendação: “Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenha inveja dos que praticam iniquidade. Porque cedo serão ceifados como a erva e murcharão como a verdura. Confia no Senhor e faze o bem; habitarás na terra e, verdadeiramente, serás alimentado” (37:1-3).

O Novo Testamento também, em nenhum momento, afirma que os nascidos de novo teriam uma vida fácil e confortável aqui na terra. Ao contrário, todos que decidissem seguir a JESUS passariam por grandes sofrimentos, injustiças, aflições, perseguições. Quando digo que nós, cristãos, fomos chamados inicialmente para sofrermos, muitos se escandalizam, como se eu estivesse dizendo alguma heresia. O sofrimento, sim, deve ser a marca de todo cristão, pois se o NOSSO MESTRE padeceu por Amor de Sua igreja, nós teremos que sofrer o mesmo. Mas, assim também como ELE ressuscitou, os remidos pelo Seu Sangue serão glorificados. Essa é a verdadeira doutrina cristã-apostólica.        

Vamos agora ler algumas passagens do Novo Testamento, ou seja, passagens da época de JESUS e os apóstolos, tempos da Graça, e compararmos com aquilo que se prega pelos defensores da doutrina do “toma lá dá cá”:

“Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se traspassaram a si mesmos, com muitas dores” (1 Timóteo 6:9-10);

“E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade; e, por avareza, farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita” (2 Pedro 2:1-3) (grifo meu);

“E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza, porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui” (Lucas 12:15);

“Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem coloquem a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos; que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis; que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna” (1 Timóteo 6:17-19);

“Ouvi, meus amados irmãos. Porventura, não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?” (Tiago 2:5);

“Sei estar abatido e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Filipenses 4:12-13);

“Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos. E assim, nós, que vivemos, somos entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossa carne mortal” (2 Coríntios 4:8-11);

“No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo: eu venci o mundo” (João 16:33).

Uma leitura, mesmo superficial dos evangelhos, mostra a total despreocupação de JESUS pelos bens materiais. Até porque o Seu reino não era deste mundo. A quem quiser segui-LO, aconselha a vender seus bens e dá-los aos pobres. NOSSO SALVADOR também disse que a riqueza dificulta a entrada no reino de DEUS. Aos pobres, famintos e sofredores, recomenda paciência. É evidente que esses ensinamentos são radicalmente opostos à “teologia” da prosperidade. Porém, isso não significa que riqueza, saúde, bem-estar devam ser repudiados pelos cristãos, pois, como afirma a Palavra, quem busca em primeiro lugar o reino de DEUS e a sua justiça, terá em acréscimo todas as coisas que são necessárias para a sua sobrevivência (ref. Mateus 6:33). Mas antes, JESUS nos orienta a não andarmos ansiosos quanto ao que iremos comer ou vestir, pois “essas coisas os gentios procuram. Decerto, vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas” (Mateus 6:32).

Por outro lado, é preciso compreendermos que os verdadeiros Ministérios de DEUS devem ser sustentados financeiramente, através dos dízimos e ofertas alçadas, pelo povo de DEUS. Mas nada feito em forma de barganha: dar algo, buscando receber em troca. Infelizmente, muitos ingênuos deixam de abençoar a verdadeira Obra de DEUS para oferecer as suas finanças e os seus bens para homens que vivem a distorcer o Evangelho de CRISTO e encaminhá-los a uma vida de alienação religiosa. Os Ministérios sérios primeiramente são identificados porque ensinam a verdadeira e pura doutrina cristã, sem mácula nem contaminação alguma. Depois porque os milagres do SENHOR são evidentes, incontestáveis. Nesses Ministérios, o povo dá, abençoa sem interesse, compreende que a expansão do Evangelho se faz exclusivamente através do sustento dos fiéis; sofre, renuncia o próprio EU; é corrigido, disciplinado; reparte com o necessitado o que tem, e ainda assim é perseguido, afrontado, sofre grandes aflições; cai e se levanta; ora e recebe na mesma hora a Graça e o perdão de DEUS. É dessa maneira que os filhos de DEUS são aperfeiçoados em santidade. É assim que eles alcançam a maior e a melhor das prosperidades: a herança do Reino da Sua Glória e do Seu Amor. Que DEUS tenha misericórdia de nós e continue a nos abençoar!

FERNANDO CÉSAR – Escritor, autor dos livros “Não Mude de religião: mude de vida!”, “Pódio da Graça”; “Antes que a Luz do Sol escureça” e da coleção “Destrua o divórcio antes que ele destrua seu casamento”, “Destrua o adultério antes que ele destrua seu casamento”, “Destrua a insubmissão antes que ela destrua seu casamento”. Também é Pastor e líder do Ministério Restaurando Famílias para Cristo. 

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